CATUMBELA DAS OSTRAS OU DO SAL

Esse o primeiro nome do Lobito, e que a distinguia da Catumbela Doce, do Rio Catumbela.

É umas das cidades mais recentes da colonização portuguesa em Angola; durante mais de três séculos ninguém ligava nada para a fantástica baía, que se tornou abrigo para piratas, contrabandistas e escravocratas, cujas tripulações desembarcavam para comprar escravos aos colonos, e complementar as cargas com razias em terra, pelo interior.

Em   1836, depois de abolida a escravatura, e quando da fundação da Catumbela, houve a idéia de se construir uma cidade no Lobito, no Morro da Kileva, idéia logo abandonada,principalmente pela carência de água na região.

Curiosamente, e no que pese o “bairrismo” ainda hoje existente entre Lobitangas e Benguelenses – sim, autarquias à parte, Lobito, Catumbela e Benguela serão a breve futuro, bairros de uma mesma grande cidade – o Lobito nasceu a pedido de moradores de Benguela, cansados das baixas  por insalubridade naquela cidade.

Foi tal o afã , que em pouco tempo, esses moradores subscreveram a quantia de Trinta e Um Contos de Réis, para auxiliar nas despesas da empreitada. E assim, em 1842, antes de a Portaria Régia aprovar a transferência, inicia-se no Lobito a construção do Palácio do Governo, com dinheiro de Benguelenses e mão de obra escrava.

Em Março de 1843, D. Maria II aprova o nascimento da cidade do Lobito.

Mas na realidade, a Baía do Lobito, só começou a atrair a atenção nos finais do Século XIX, no auge do comércio da borracha.

O volume de transações exigia um ancoradouro maior do que o de Benguela, que tinha capacidade apenas para pequenas cargas.

Até então, o Lobito só servia para as pescarias, coleta de ostras – na realidade trata-se de uma concha bivalve grande, a Cucula, a melhor isca para a pesca à linha, e não de ostras mesmo – para a indústria de cal, e o corte de Tungas, uma madeira resistente dos mangais, que era usada na construção de casas na Catumbela e em Benguela, e claro de couto aos piratas, contrabandistas e escravocratas.

Foi a cobiça dos estrangeiros que abriu o porto para o mundo, e a concessão do Caminho de Ferro de Benguela, dada ao inglês Robert Williams, que deu início aos alicerces da cidade, numa luta dificílima contra os pântanos e mangais.

Em duas décadas, o Lobito passou de uma baía abandonada ou desprezada, e de pântanos com área superior à da baía, para uma cidade efervescente no crescimento.

Aterraram-se pântanos, construiu-se o caminho de ferro, o mercado, a ponte sobre o Rio Catumbela, o edifício dos correios, o do CFB, o Hotel Términos, a Igreja da Arrábida, o cais do porto com 225 metros de muro acostável, e com calado para grandes navios...

Tornou-se a ponte marítima para todo o Planalto Central de Angola, e gare marítima para grande parte da África Austral e portos da Europa.

Em 1929 o CFB atingiu a fronteira com o Congo Belga, tornando-se a via mais econômica para o escoamento do cobre das minas de Katanga.

O Porto do Lobito, mais econômico por estar mais  perto da Europa, passou a ser o substituto natural aos portos da Beira e da Cidade do Cabo.

Enfim história e histórias da nossa terra e do tempo do Kaparandanda, um conterrâneo    que não deve ser esquecido.

Kaparandanda era o primeiro sobrinho do Soba Kulembe, da Catumbela.

Ia ser Soba.

Adolescente, ganhou fama por ter morto sozinho um leopardo – ongué – que andava a comer as cabras – ohombo – dos kimbos do sobado, e por mostrar liderança entre o povo súbdito de Kulembe.

Kaparandanda pode ser considerado um dos mais convictos resistentes ao domínio colonial, como também um dos primeiros resistentes a ser enviado como prisioneiro para S. Tomé, um dos locais preferidos pela   PIDE/DGS, para confinamento de presos políticos, na época colonial.

Ainda bem jovem, inconformado com a passagem e estadia de caravanas de pombeiros e aviados – que chefiavam as caravanas de comércio, levando panos e sal  para o Huambo – Bailundos – e trazendo borracha, cera, mel e marfim – sem se submeterem a qualquer tipo de pagamento,  pediu uma audiência ao Soba seu tio  e aos sekulos, onde tentou convencê-los a que fosse cobrada uma taxa – Onepa -  a essas caravanas.

O Soba, acomodado e com medo da reação dos colonos, não concordou.

Kaparandanda então reuniu um grupo de guerreiros e foi para o mato, armar emboscadas e assaltar as caravanas, cujo produto, confiscado, era em parte, distribuído pelos kimbos do sobado.

Quando os colonizadores tomaram conhecimento dessas ações, foram falar com o Soba, para que tomasse providências e acabasse com essa resistência.

O Soba reuniu os melhores guerreiros e ordenou-lhes que fossem pegar Kaparandanda e os seguidores.

Mas o resultado foi o contrário do previsto.

O grupo de Kaparandanda, dominou e derrotou fácil os guerreiros de Kulembe.

Os colonizadores resolveram então fornecer armas de fogo ao Kulembe, acreditando que, com essa vantagem, acabariam com o grupo guerrilheiro. 

Mas Kaparandanda, agindo como um Robin Hood angolano, tinha já granjeado a simpatia de grande parte dos kimbos do sobado; então, emissários dos kimbos, saíam para avisá-lo da movimentação das forças de Kulembe, o que lhe deu condições de, uma vez mais, espera-las para o confronto, em local que lhe era propício, anulando assim a vantagem das armas de fogo.   

Uma vez mais a tropa de Kulembe foi derrotada, e Kaparandanda ficou melhor armado.

Os colonizadores resolveram então enviar uma companhia de tropa portuguesa, comandada por um capitão de nome Almeida, para submeter Kaparandanda.O encontro deu-se no Sopé do Passe. O grupo de Kaparandanda saiu derrotado, e ele, levado preso, primeiro para o Forte da Catumbela, e depois  para S. Tomé.  

Kaparandanda agiu de 1874 a 1886




Carlos Duarte
10Jan.2013                                                                                                                                                                                                                                                                                           





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