Livro: A Primeira Travessia de África ou como os Pombeiros Pedro João Baptista e Amaro José Atravessaram o Continente Africano


Para mim é inquestionável que a vida tem determinismos, e determinismos muitas vezes de uma obscuridade tal, que os torna  muito mais difíceis de entender.

Determinismos que nos fazem conhecedores ou participantes de acontecimentos que, embora reais, de tão extraordinários e surrealistas, mais parecem fruto da imaginação de um louco.

Mas loucas nos parecem também a nós, simples mortais alijados que somos de novas teorias que surgem e nos explicam em teoremas e corolários, incerteza, indeterminação, dinamismo, universos fractais e caos.

Entre os determinismos  que mais me causam perplexidade, estão as coincidências.

No início de 1972, havia uma cubata a pouco mais de cem metros do Forte de Kabatukila, escorada por um megalito que fica quase flutuando sobre o verde exuberante e majestoso da Baixa de Kassange, onde morava um secúlo Jaga, de nome Tchá-Tchiála diá Katchipwa.

Passei lá nessa época a caminho da Lunda, ia passar uma temporada  em casa do Vicky Pais Martins, onde pretendia estudar um pouco “in loco” costumes Tchokwé e Luba para um trabalho “Etnografia Sobre os Povos de Angola” que me havia metido a escrever.

Viajávamos em caravana, e o Vicky viajava usando a farda do exército, e então, a despeito dos meus esforços e pedidos através do intérprete – o secúlo só falava Jaga – o velho ermitão não foi pródigo nas histórias contadas sem variação nem emoção no tom.

Fosse por me ter confundido com um comprador de kamanga, fosse pela farda do Vicky, ou simplesmente porque não teve vontade; portanto por inibição, pudor ou mera vontade, não respondia aos meus apelos para falar sobre Jingas e Jagas, as guerras do Kahange  e do Kassange, a Epopéia do Massangano, antes divergindo para a história da primeira travessia de África pelos pombeiros ou tangomanos - como eram conhecidos pelos povos locais os mercadores de escravos e por similaridade os mercadores em geral – Pedro João Baptista e Anastácio José, este também conhecido por Anastácio Francisco ou Amaro José – de quem se dizia descendente – empreendida entre 1802 e 1811 ida,  e  1811-1814 a volta.

Uma expedição fantástica até pra os dias de hoje, imagine-se na época, antes de Serpa Pinto, Capelo e Ivens, antes de Cecil John Rhodes.

Esses dois mercadores angolanos, com o feito deles, deram pela primeira vez ao colonizador português a idéia do Mapa Cor de Rosa – uma fatia do continente
Africano compreendendo Angola, Moçambique e os territórios entre os dois países, como colônia  da Coroa Portuguesa.


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O RESTO DA HISTÓRIA DOS POMBEIROS NA TRAVESSIA DO CONTINENTE




A história . . . são versões de fatos, de acontecimentos. A batalha do Aljubarrota, entre Portugal e Espanha, tem um vencedor diferente em cada lado da fronteira dos dois países hibéricos.

Os diários de Chico Franque sobre os dois heróis Tangomangos infelizmente foram interrompidos quase no finalzinho da aventura, e a carta depoimento do Pedro João Baptista não fala no regresso.

Tive então que recorrer uma vez mais a pesquisas diversas, que me levaram a versões diferentes não propriamente do regresso mas de até onde chegaram na ida.

O depoimento de Pedro João Baptista deixa claro que não passaram de Tete.

Publicações nos “Annaes” (1) dizem sobre a maneira como foram recebidos em Tete:

- Toda gente os recebeu de braços abertos, admirando-se por nenhum deles se mostrara abatido, cansado, nem com medo do regresso. O governador de Moçambique quis que voltassem a Angola de barco por ser mais rápido e seguro, mas eles preferiram embrenhar-se de novo no mato. Quatro anos depois chegavam a casa felizes e contentes com a sua proeza. O governador de Angola também ficou entusiasmadíssimo e entendeu que devia enviá-los ao rei, para serem devidamente festejados e para contarem as suas aventuras.



Bom, como saber?

Pelo relatório do Pombeiro foram recebidos, alojados e alimentados, mas em momento nenhum ele diz ter sido sugerido a volta dos dois de navio, e sabemos que lhes deram recursos insuficientes para voltar a pé, e nem uma simples arma para se defenderem.

É essa uma boa recepção?

E podem ter sido sim convidados a regressar de navio, e se terem recusado para poderem rever filhos e mulheres, povos (1) e amigos de lugares onde foi marcante a sua passagem e estadia, o lapso de tempo ali vivido.

(1)Annaes Marítimos e Coloniais, 1843

Mas não muito tempo decorrido após a publicação dos Annaes, o diário de Pedro João Baptista apareceu resumido e traduzido em inglês, com algumas notas e observações, por Willian D. Cooley, em “The Ggography of N’Yassi”, jornal Of The Royal Ggographical Society, Londres, XV, 1845 p.p. 214 – 236.

Sete anos depois, o mesmo autor, desta vez em “Inner África laid Opem”, Londres, 1852, retomaria o resumo dizendo:
- [ . . . ] Parece que foram muito bem tratados por ele (Muatiânvua) e, continuando a sua viagem sem contratempos, chegaram a Lucenda, a residência do Kazembe, no ultimo dia de 1806. aqui permaneceram quatro anos, impedidos por guerras de continuarem para Tete. Finalmente, a 2 de fevereiro de 1811 entraram nesta vila, onde foram mal recebidos pelas autoridades portuguesas e, com meios insuficientes, retomaram o caminho de regresso a Angola, onde chegaram em 1815 (2).

Temos base para deixar a nossa imaginação correr e tirar conclusões pessoais, sobre como os Pombeiros foram recebidos em Tete.

Deixemos também a nossa imaginação voar, e criar as etapas do regresso, mais três anos e sete meses – de início de maio de 1811 a finais de 1814 – de aventura, reencontros e vida.

De Angola foram enviados pelo governador, para o Rio de Janeiro, onde se encontrava a corte portuguesa, sendo portadores dos seguintes documentos:

1 – Ofício do Capitão General de Angola, José de Oliveira Barbosa, daquele mesmo dia, dirigido ao Marquês de Aguiar, acompanhado de outro do Governador de Rios de Sena para o Conde Galveias, datado de 20 de maio de 1811, dando conta, entre outras coisas, do feito dos Pombeiros; copias da derrota começada a 22 de maio de 1806, (2) discrepância de datas! com apontamentos correspondentes a 78 dias, desde a corte do Muatiânvua ate à corte do Kazembe, e outra de 57 dias, do kazembe à vila de Tete, ambas escritas por Pedro João Baptista; traslado das questões postas aos Pombeiros pelo governador dos Rios de Sena; cópia da carta do Tenente Coronel Francisco Honorato costa dirigida aquele governador, datada de 11 de novembro de 1804, de que foram portadores os Pombeiros.


2 – Oficio do Governador de Angola J. de Oliveira Barbosa, de 25 de janeiro de 1815, dirigido a Antonio de Araújo Azevedo, em tudo semelhante ao indicado anteriormente, incluindo cópias da carta de Francisco Honorato Costa (acima referido), das derrotas dos Pombeiros (com algumas pequenas diferenças destas cópias às mencionadas acima), da nota dos dias de viagem destes, do Muatiânvua para a feira do Macari, e do relatório da estada de Pedro João Baptista em terras do Kazembe.


3 – Notícia do que passou o Pombeiro em Tete, escrita também por ele próprio; declaração de Francisco Honorato Costa a favor dos seus Pombeiros, com data de 27 de outubro de 1814.


Foram estes documentos publicados, sem qualquer alteração nem mesmo da ortografia, nos Annaes Marítimos e Coloniaes, em 1843, juntamente com outros: uma carta escrita no palácio do Rio de janeiro, em 28 de agosto de 1815, assinada pelo Príncipe regente, e dirigida ao governador de angola, J. de Oliveira Barbosa; duas curtas notas do Marquês de Aguiar, também datadas do Rio de janeiro, 31 de agosto do mesmo ano; os decretos
de mercês concedidas aos Pombeiros e a Francisco Honorato Costa, em reconehcimento do que tinham feito.

Enfim, sabe-se que o Príncipe Regente premiou Pedro João Baptista – jamais aparecem referências a Amaro José – com a patente de capitão de uma companhia de pedestres que se havia de organizar na feira de Mucari, com a salvaguarda de começar a usufruir de imediato, de todas as vantagens do posto, isto é, um soldo de dez mil reais por mês, e do uso do respectivo uniforme.
(In Garcia de Orta, série geografia, vol. 9 nº 1 e 2. 1984)




FIM





Fim?

O que mais resta fazer, esgotadas que estão as pesquisas, interrompido que foi o relato de Chico Franque, inexistência de qualquer outra referencia que nos possa dar uma luz sobre o fim da história mesmo?

Nada!

A não ser por “parecer impossível fazer cálculos precisos sobre movimentos individuais de partículas em números astronômicos como nos diz a teoria da incerteza ou indeterminação”; e o que somos além de partículas?

A não ser pelos fenômenos que apresentam comportamento imprevisível, como atesta a teoria dos sistemas caóticos.

A não ser porque em 1972 conheci um secúlo jaga morando isolado sobre uma pedra que dominava a baixa de Kassange, a uma centena de metros do forte de Kabatukila, e que, a despeito das minhas perguntas sobre os jagas e N’Zinga Bandi, das guerras do Kassange e Kahange, da epopéia Massangano, ignorou completamente as questões que eu tinha mais urgência em saber, insistindo em falar numa oralitura detalhada ao pormenor, de um tataravô dele, de nome Amaro José!

De uma conversa com todas as dificuldades inerentes à necessidade do uso de um intérprete tradutor, que mais parecia uma entropia coloquial de perguntas sem respostas e respostas sem perguntas, de repente, décadas depois, cruza-se na minha cabeça, junto com a indeterminação, o dinamismo, o acaso, o universo fraccionado, que nem os sete ventos da Humpata, para criar uma lógica obediente ao puro acaso.

O ermitão e secúlo Tchá-Tchiála Dia Katchipwa era, pelo menos até 1972, o arquivo vivo com a história da viagem dos Pombeiros.
Na ânsia de saber as respostas às perguntas que no momento mais me interessavam, demorei a perceber que as minhas perguntas iriam – pelo menos nesse dia, e eu não tinha outro dia para conversar com o velho sábio – cair no vazio.
Quando por fim entendi isso, cuidei de fazer as anotações de taquigrafia pessoal, criada com símbolos inventados, hoje difíceis de interpretar, de tudo o que o intérprete tradutor me dizia que o secúlo tinha contado.

Por esse motivo, apenas tomei notas já sobre a viagem de volta!


- A Primeira Travessia de África ou como os Pombeiros Pedro João Baptista e Amaro José Atravessaram o Continente Africano

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