Livro: Albert Potgieter o Bôer ou Um Afrikânner no Rio Madeira



                        Pôcker é um jogo único, dinâmico, um jogo que proporciona momentos de tensão e de descarga de adrenalina, como só um jogador que apostou o cacife numa mão modesta mas não óbvia, contra uma mão melhor mas hesitante é que pode entender.

                        É um jogo que revela personalidades, mesquinhas ou altruístas, apáticas ou atuantes, calmas ou iradas, conformadas ou revanchistas, contidas ou sem freios, facilmente camufladas, submersas fora da mesa de jogo, mas que inevitavelmente emergem com a movimentação, migratória quase sempre, dos volumes de fichas.

                        É um jogo em que, pelo fato de o jogador não depender exclusivamente da sorte, isto é, de a sorte não ser o único fator determinante para que se ganhe ou perca, tem que, mais do que em qualquer outro, saber avaliar muito bem as possibilidades, as chances.

                        Fui na juventude, um modesto mas interessado jogador do pôcker.

                        Na vida tenho feito muito bom uso da picardia do blefe, da decisão firme do “pago pra ver” ou do “estou fora”, e da avaliação rápida de chances e probabilidades.

                        Mas encontrar um bôer, um afrikâneer, nos barrancos do Rio Madeira, na Amazônia brasileira, no meio da lassidão de dezenas de dragas de garimpo de ouro paradas, pela exaustão do subsolo do leito do rio, e da ação da polícia da Capitania dos Portos, que impedia a atividade garimpeira em área navegável, estava além da probabilidade e da chance do possível!.

                        Mas foi exatamente o que aconteceu numa tarde poeirenta, ensolarada e de calor escaldante, em meados de julho de 1994.

                        Encontrei no Rio Madeira, em Rondônia, um bôer disposto a apostar o mais alto dos cacifes, a vida!

                        Numa aposta sem mão, sem nada para mostrar no final da jogada.

                                                            - “ –


BÔERS NÃO EMIGRAM

                        Bôers não emigram!
                       
                        Povo de origem principalmente holandesa, que se mudou para a África do Sul fugindo à perseguição religiosa da igreja católica a calvinistas, huguenotes e protestantes em geral, na Europa, não é uma gente que se angustie com carências ou adversidades da terra; muito pelo contrario, é reconhecidamente um povo capaz de lutar contra tudo e contra todos, para manter as raízes no seu pedaço de chão.

                        No dia 06 de abril de 1652, Jan Van Riebeeck, idealizador e fundador da Companhia Holandesa das Índias Orientais Unidas, ou Jan Compagnie ou simplesmente a Compagnie, fundou a cidade de Cabo, “Cape Town”.

                        Esse dia pode ser considerado o marco do início da colonização holandesa em África.

                        Pouco depois, em 1654, a Jan Compagnie deporta para o Cabo os lideres mulçumanos opositores da colonização holandesa na atual Indonésia; fato que marca o início do grupo étnico dos malaios no sul do Continente Africano, bem como a chegada do islamismo à África Austral.


                        Perseguidos pela intolerância religiosa da igreja católica – no dia de São Bartolomeu, perpetua-se uma das maiores carnificinas da humanidade, ordenada por Catarina de Médices e festejada pelo Papa Gregório XIII e pelo Rei Filipe II da Espanha, com milhares de homens, mulheres e crianças esquartejadas, enforcadas e queimadas em fogueiras pelas ruas das  cidades, vilas e lugarejos de toda a Europa  - calvinistas, huguenotes e protestantes em geral  rumam para o norte da Europa, para Amsterdã, onde se juntaram e tiveram apoio dos calvinistas holandeses.

                     Houve um período de trégua, de tolerância religiosa, que teve início em 1598, quando Henrique IV promulgou o Édito de Nantes -  assinado na cidade  francesa de Nantes no dia 13 de Abril de 1598, pelo Rei Francês e estipulava que o catolicismo  permanecia a religião oficial na França, mas restabelecia direitos civis e de práticas religiosas aos calvinistas, após trinta anos de perseguição.

                    O calvinismo é um movimento religioso protestante, mas também uma ideologia sócio-cultural com raízes na reforma iniciada por João Calvino; dois nervos expostos e sensíveis, que incomodavam sobremaneira nobreza e clero.

                     Calvin pretendia criar uma teocracia – forma de governo em que a autoridade emana de Deus e é exercida por seus representantes na terra, e baseava as suas doutrinas na predestinação divina, salvação pela fé e subordinação do estado à igreja.  Tinha um posicionamento puritano radical, proibindo jogos de azar, alcoolismo, danças e contatos carnais entre homens e mulheres que não fossem abençoados pela igreja.

                     Mas em 1685, Luís XIV revoga todas as concessões do Édito de Nantes, e reiniciam-se as  perseguições religiosas, o que faz com que grande contingente de calvinistas e huguenotes – termo depreciativo pelo qual eram designados os calvinistas franceses, mas que depois passou a designar protestantes em geral – segue para o Cabo, engrossando a população da província, onde se fixam, e desenvolvem na região uma nova cultura e formam uma nova comunidade conhecida como Afrikânner!


                        Este caldo de gente, composto principalmente de holandeses, mas misturada a franceses, belgas, suíços, malaios e mais tarde hotentotes, é o início dos afrikânner e da língua afrikâns.

                        Bôer é um termo genérico que designa os homens que vivem da terra, do que a terra possa dar, com o bom tratamento e cultivo.

                        Bôers lutaram por duas vezes contra a coroa inglesa, no que ficou conhecido e passou à história como as “Guerras Bôers”, a primeira em 1880 – 1881 vencida pelos Afrikângers, e a segunda 1899 – 1902 que levou a anexação das Republicas Bôers do Transvaal e do estado livre do Orange, à Colônia Britânica do Cabo, e centenas de vezes contra hotentotes, zulus, tchozas e metebeles. Tiveram vitórias, alianças com diversas tribos e derrotas, mas nunca emigraram para outras terras, outros países.

                        Como pastores de grandes rebanhos bovinos, os treckbôers, bôers que se dedicavam exclusivamente à criação de gado bovino, migravam sazonalmente em busca de novas pastagens, novos campos de alimento para o gado – data de 1880 o primeiro contato de europeus com povos do Planalto do Lubango em Angola; treckbôers em busca de novos pastos.

                        Bôers migram portanto, mas não emigram!






- Albert Potgieter o Bôer ou Um Afrikânner no Rio Madeira

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