Livro: A História de Maria Moto Serra a que Renasceu das Cinzas ou Os Altos e Baixos da Vida de Uma Quenga de Garimpo



Maria Aparecida acordou antes dos galos da vizinhança, com um cheiro de terra molhada, que lhe dava  uma certeza inequívoca de tragédias, e com a intuição das índias Amazonenses, teve a certeza de que aquela quarta feira fora feita para se mudar de vida.

O vulto do marido, do outro lado da cama, exalava um cheiro denso de suor que ocupava o quarto com um volume crescente e teimoso, que nem as janelas venezianas, abertas de par em par, ajudavam a espalhar.

Todas as manhãs de doze verões de calor pesado, ela obedecia ao ritual de levantar e varrer pelo  ar parado do quarto, a nuvem cinzenta de cheiro que, expulsa, se mantinha próxima à mangueira do quintal até ao anoitecer, afastando-lhes da porta os gatos vadios da vizinhança e adubando a imensa árvore de frutos, junto com o orvalho da noite, fazendo com que produzisse o ano inteiro, Mangas Rosa do tamanho da cabeça de crianças, tão aromáticas que podiam ser vendidas apregoando que a polpa era para comer, e o cheiro para botar no lenço.

Tomou o banho de cuia, em que a gostosa sensação do cimento áspero e irregular do piso do banheiro nos pés de sola grossa, lhe trazia lembranças de outras vidas.

Vestiu-se como sempre sem enxugar o corpo, em parte por gostar de manter por mais tempo o frescor da água na pele morena, mas principalmente por acreditar que todas as toalhas eram ninhos de súcubos, dispostos a acordar de sonos leves com o ralar do pano contra a pele, inoculando-lhe uma ânsia uterina muar, que considerava imprópria para as primeiras horas do dia.

Na cozinha, após exorcizar os demônios da fome que eram responsáveis pelos dons mediúnicos e premonitórios, preparou a primeira refeição do dia; um cuz cuz de macaxeira, banana d’água frita e um café xaropado, cuja fervura acordou como um clarim militar   toda a família, incluindo-se nesse conceito, Ulisse, um cachorro vira lata, mestiço de nobre Schnauzer com delicada Basset, único sobrevivente por pura teimosia, de uma ninhada de sete, jogados ao rio dentro de um saco de juta, quando os donos da leviana cachorrinha, ciosos do pedigree da linhagem, constataram as preferências por volume, em detrimento da continuidade da pureza étnica da mimosa Basset.

Como Ulisse logrou escapar do saco de juta e conseguiu nadar até ao barranco do rio, nunca ninguém soube, nem ele explicou, mas o certo é que veio até à terra seca, sem grandes mostras de cansaço, onde Cosme empinava pipas à brisa da hora da sesta, a melhor na sua opinião de especialista. Quando os ventos começaram a mudar de rumo, e os tracajás a mergulhar para refrescar os cascos enegrecidos, Cosme recolheu as duas pipas que sempre soltava juntas, uma dele mesmo e a outra, minuciosamente igual, até ao menor dos detalhes, pelo irmão gêmeo, morto aos dois anos de idade por uma febre intestinal fulminante, e que aos cinco anos lhe apareceu num sonho nítido, pedindo-lhe que sempre brincasse em duplicado; desse dia em diante, brincando, Cosme era também Damião. Recolheu as pipas e foi para casa, sabendo que aquele cachorro surgido do fundo do rio, já havia escolhido a sua definitiva moradia.

Ulisse foi recebido sem animosidade ou simpatia, mais como se todos soubessem da sua eminente chegada, e por ter vindo das águas, Maria Aparecida, afeita aos nomes religiosos e históricos, os de maior presença, deu-lhe o nome do  mitológico navegador, porém no singular, por lhe parecer pretensão muita, um nome plural para um bicho de aspecto tão insignificante.

Ulisse, tal como seu homônimo Grego, jamais se deixou encantar pelas Sereias do rio, cujo canto, trazido a contra gosto pelo mormaço da floresta nas noites de lua cheia, o tirava da mais trágica letargia, levando-o a uivar lamentos comoventes até a lua mudar de fase.

As primeiras horas da manhã espalharam a família por tarefas rotineiras.

O marido, no passo sem pressa e determinadamente lento dos aposentados dos trópicos, foi colher nas areias das praias fluviais, os ovos de tracajá e tartaruga, com cujo preparo e ingestão diária, mantinha aos oitenta e seis anos de idade uma virilidade de causar inveja a Príapo.

Rômulo, o filho mais velho, exímio na pontaria com o bodoque foi exterminar pássaros nas árvores da praça central, como se fosse a sua missão na vida. Só interrompia a tarefa quando tinha o samburá cheio, e então o ia esvaziar na mesa da cozinha, para a fritada do meio da tarde, ritual cumprido com pontualidade religiosa desde que se entendia como gente.

Cosme foi fabricar pares de pipas. Com tanto afã o fazia, que por toda a casa havia pilhas que se amontoavam acima da cabeça de um homem de altura mediana.

Maria Aparecida, tão logo escutou a respiração compassada de Ulisse, e com isso teve a certeza de estar sozinha, tirou pela cabeça o vestido de algodão leve e, pelada, arrumou sem zelo nem cuidado, um pouco de roupa ao acaso, numa maleta de cantos de chapa, jogou alguns pertences e uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, sua protetora, ajeitou-se com ondulações do corpo forte e bonito ainda, aos vinte e cinco anos e dois filhos, dentro de um vestido folgado de chitão estampado e vistoso, calçou uma sandália confortável, pegou a maleta e dirigiu-se ao cais ribeirinho, sem olhar para trás, nem chutar as mangas maduras que durante a noite caíam com um som melancólico da árvore, e durante o dia se desfaziam numa lama aromática, único antídoto para a nuvem de suor que cercava a árvore e defendia a casa como uma legião de ferozes guerreiros, com o empenho de Cérbero, guardando as portas do inferno.

No cais flutuante  agachou-se confortavelmente, vestido pelo meio das coxas grossas, preso entre elas, à sombra de uma Sucupira adulta, e esperou exatas três horas e quarenta minutos, pelo primeiro gaiola que passou.

Notou com um suspiro de alívio e tomou como bom presságio, a carranca medonha, de dentes arreganhados e pêlos ouriçados que, grudada à proa da embarcação, afastava os maus espíritos, os augúrios de morte e destruição, que vagando pela superfície dos rios, são os responsáveis pelos naufrágios e afogamentos, luto,  tristeza e dor nas barrancas ribeirinhas. Uma carranca imponente, trazida do São Francisco, e que junto com o gaiola dividia o orgulho do piloto. Reluzia em brancos, pretos e vermelhos recém pintados, com um olhar atento e fixo em todas as direções, um olhar temerário, que afastava os olhares humanos; um olhar para afastar o sobrenatural.

Embarcou sem perguntar destino, amarrou a rede bem firme, deitou-se  alongando os olhos na imensidão do rio, e começou a chorar um choro manso, pois pela primeira vez em vinte e cinco anos conseguia distinguir os contornos da floresta, e sentiu-se feliz.



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Passou a subir todas as noites para o tombadilho, e manteve a decisão de permanecer de olhos cerrados; não era importante saber quem, mas sentir o que faziam com ela, por ela. Tão pouco ficou preocupada quando percebeu que não era sempre o mesmo, o seu parceiro, mas vários, e todos eles ávidos, e passou a sentir uma grande gratidão por homens em geral, e pelos do barco em particular.

Entregava-se sem envolvimento nem paixão. Sentia apenas tesão, muito tesão, e tornou-se dependente do contato com homem, para satisfação da quase constante ânsia uterina.

A felicidade que sentia era tão autêntica, tão genuína, que nas proximidades de Porto Velho, quando o barco passava pelo Belmonte, acenava aos beiradeiros esfuziante, sentindo-se uma viajante retornando ao verdadeiro lar depois de longa ausência. Quando o gaiola encostou no Barranco do Cai n’Água, ao lado do flutuante do entreposto de pesca, imaginou que todas as pessoas que formigavam em frente ao mercado e na rampa de  carga das chaleiras estavam ali unicamente para saudar a sua chegada, lhe expressar as boas vindas, lhe perguntar um pouco indignadas o porquê de tanta demora, que assuntos urgentes e afazeres importantes a retiveram tanto tempo  afastada do seu lugar, os privara da sua companhia.

Tudo isto pensava Maria Aparecida, com a pequena mala de cantoneiras chapeadas na mão, e enquanto passava pela estreita tábua que fazia ponte entre a amurada do barranco e o barro negro e liso, e que servia de portaló de desembarque, e enquanto subia cautelosa a margem escorregadia, advertida já da razão de ser do nome daquele cais, Cai n’Água.

O aspecto geral sórdido, de lixo acumulado no remanso de rio, do barranco de barro negro e poroso, onde os pés afundavam molemente, dos flutuantes descambados atracados ao longo da margem, de carregadores suarentos, com inverossímeis pesos às costas, ombros esfolados no vai e vem monótono da estiva de carga e descarga dos diversos barcos, da indolência e indiferença de motoristas de táxis decrépitos, de barracas e carrinhos de comida rápida, onde o aspecto sujo, dormido e gorduroso dos salgadinhos, só era visível após a muito custo e vigorosas sacudidas de mão, afastar enxames de moscas teimosas e abusadas, gordas por se cevarem na comida rançosa, eram beleza pura aos olhos de Maria Aparecida.

Ela, que já tivera acesso a ambientes de luxo e requinte, quando cantou na boite de um hotel de  cinco estrelas em Manaus, achou lindo tudo o que via, e aspirava com verdadeiro deleite o cheiro impregnante de peixe decomposto, emanado do caldo virulento dos destroços de gerações de cardumes de peixes eviscerados no entreposto, e jogados com indiferença nas águas paradas entre a margem do rio e as embarcações ribeirinhas.

Numa dessas barracas, escolhida ao acaso, encostada às tábuas de madeira mal aplainada, e com o verde da tinta desbotado escamando num descascar côncavo como minúsculas cuias, tomou um refrigerante e perguntou por um hotel barato onde pudesse ficar.

Um motorista de táxi que estava por perto levou-a a um pequeno hotel do lado da Estação Rodoviária, a uma velocidade indiferente ao seu deslumbramento de turista, extasiada com o movimento de comércio da Avenida Sete de Setembro, um comércio turco, com pilhas de roupas baratas amontoadas em bandejas de madeira pelas calçadas, e imensos alto falantes, potentes, em disputas de desespero de loja para loja.

O quarto pequeno, com uma cama de solteiro, um armário sem portas com dois cabides de arame pendurados, uma cadeira maciça e um ventilador emperrado que se limitava a espalhar o calor em giros desritmados, pareceu-lhe aos olhos benevolentes, a mais fina das suítes, e o preço estava ao seu alcance por um período limitado. Um banheiro estreito mas limpo, completava o seu novo espaço.

O hotel, como todos em volta, era essencialmente ocupado por garimpeiros, de dinheiro contado durante a semana, quando estavam de ida para os garimpos, mas de bolso cheio e perdulários em ouro, nos finais de semana  em que vinham à cidade gastar, em delírio insano, o produto de meses de trabalho, na premência de comprar principalmente calor humano, de que tanto careciam na labuta árdua do ofício.




- A História de Maria Moto Serra a que Renasceu das Cinzas ou Os Altos e Baixos da Vida de Uma Quenga de Garimpo

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