Histórias de Garimpo: Garimpando Ouro por aí...
Garimpando Ouro por aí...
Histórias de
Garimpo
Carlos Duarte
Alto Tapajós Jul/Ago
91
Prólogo
No garimpo, principalmente
no aluvião, não existe praticamente lazer. O que se faz é em função do
trabalho. Trabalha-se sete dias por semana, vinte e quatro horas por dia, sem pausas para
finais de semana ou feriados.
Garimpeiros trabalhando
As pausas e a inactividade
quando ocorrem, são motivadas por algum tipo de avaria no equipamento, cuja
complexidade na reparação exija peças vindas da cidade ou a presença de algum
técnico que tenha que ser chamado. Tão logo o problema é solucionado, recomeça
a actividade, independentemente do dia e hora.
A própria caça e pesca, que
não deixam de ser actividades de lazer, praticam-se mais por uma questão de
necessidade de prover alimentos frescos, do que como prática desportiva.
Fora as currutelas –
conjunto de flutuantes com comércio, botequins e o inevitável puteiro – nem por
todos os garimpeiros frequentados, o lazer resume-se aos “causos” que, se
verídicos alguns, são no mínimo exagerados, tanto na tristeza e na desgraça que
descrevem, como na alegria entre sonoras e soltas gargalhadas.
Vou contar aqui algumas
dessas histórias, as que a minha memória arquivou, e sobre esse povo composto
de garimpeiros, bandeirinhas, mecânicos, prestadores de serviços diversos,
comerciantes, vendedoras, cozinheiras e putas, quase sempre novinhas,
moderninhas na idade.
Uma boa parte das histórias
são divertidas, mas “causos” ocorridos numa corrida de ouro, em tudo similar a
todas as outras ao longo na história, nos mais diversos lugares do mundo, com
uma concentração fantástica de aventureiros e em lugares inacessíveis à lei
comum, não sujeitos às sanções normais
da civilização, há também um bocado de histórias bárbaras, trágicas e
dramáticas.
A Lei do Garimpo é
consuetudinária, e que ninguém alegue desconhecimento. Como dizer que não
sabia, uma coisa que todos sabem? Há tabus - roubo, mexer com mulher errada,
perfídia! Não há presídios nem guardas, então a pena é sempre uma só, a morte e
o corpo jogado no rio. Não há muita consideração pela vida humana nos garimpos.
Não tive qualquer tipo de preocupação
com alguma ordenação cronológica ou de temas, qualquer que fosse. Limitei-me a
ir escrevendo à medida que me ocorriam à memória os assuntos, numa sucessão
que, embora desordenada, foi também muito gostosa, por me trazer à lembrança as
circunstâncias em que ocorreram ou me foram contadas.
E dificilmente as
semelhanças serão meras coincidências.
CD
CAGAR NA
ESTRADA
Esta história também me foi
contada pelo Raimundo “Pai Velho” na mesma viagem.
Passou-se no tempo em que
ônibus e carros que se aventurassem à estrada para Abunã, tinham hora para
partir mas nunca para chegar. A estrada esburacada e com atoleiros
quilométricos, transformava cada viagem numa odisséia.
Passou-se numa noite escura,
fechada e de forte chuva.
O peão vinha no ónibus,
torcendo-se de dor de barriga, mas quieto, em silêncio, pois os olhares hostis
dos outros passageiros a cada gemido, o desencorajavam.
Na parada anterior, num
boteco da estrada, tinha sido o único a encarar uns pastéis Lavoisier, que o
dono do bar, após sacudir as moscas, apresentava como sendo do dia.
Bom, perto do Mutum a
situação era insustentável. O peão pediu ao motorista para parar o ónibus e os
restantes passageiros, achando que ele estava na eminência de se aliviar ali
mesmo, não se opuseram.
O peão saiu e foi para a
parte traseira da viatura, lugar mais a coberto de olhares inibidores.
De repente, ouviu-se um
rugido, gritos e depois um silêncio sepulcral.
Os passageiros deixaram
passar algum tempo e, como nada mais acontecesse nem o cagão voltasse, alguns
mais afoitos resolveram ir investigar.
Lá atrás, já um pouquinho
dissipadas pela chuva, viam-se pegadas de onça....e um rastro de merda que ia
do chão até ao teto do ónibus, onde o garimpeiro se mantinha de olhos
esbugalhados, apavorado.
Em plena função,
surpreendido por uma onça, subiu correndo pela escada do bagageiro, sem parar
de cagar!
CAVALO
DE PAU
A técnica é simples e a manobra é a causadora
da maioria dos acidentes com voadeiras.
O piloto da voadeira acelera
à máxima potência e depois puxa o timão de repente, provocando na voadeira um
giro de 180 graus, mostrando assim aos outros peões e principalmente às
cozinheiras e meninas do brega, a sua perícia, a sua capacidade de domínio sobre
a máquina.
Não raro cai e não raro,
também, a voadeira fica rodando sem piloto, passando-lhe por cima, com
consequências as mais diversas. Mas não é sempre que o desfecho é trágico.
A outra alternativa é sempre hilariante
para quem assiste.
Na draga do Chow, no Porto
da Balsa em 88, havia uma cozinheira cujo maior prazer na vida era andar de
voadeira. Fosse a que horas fosse do dia e estivesse ela fazendo o que
estivesse, bastava ver um dos peões da draga desamarrar a voadeira que ela se
despencava da cozinha e, num ápice, estava sentada à proa da embarcação,
ostentando um ar feliz.
Um dia, eu estava
conversando com o Rubens, paraense e meu gerente da draga na época, quando
vimos um operador do Chow, que tinha a draga poitada perto da minha, preparar-se
para sair na voadeira e, atrás dele,
toda serelepe, lá vinha a cozinheira.
O peão, de maldade, saiu a
toda a aceleração e fez o cavalo de pau... só que caiu ao rio.
A voadeira, sem piloto e com
a dona Maria sentada à proa apavorada, ficou rodando em círculo e cada vez que
passava perto do peão, ele gritava para a dona Maria arrancar o chicote do
motor – mangueira de alimentação de combustível.
A dona Maria, a princípio
nem se mexia, mas umas quantas voltas dadas sem novidades, começou a ganhar
confiança e foi-se arrastando devagar para a popa, para o motor. Quando lá
chegou, tentando adivinhar que diabos seria o chicote do motor, acho por bem
apoiar-se no timão com todo o peso, levando-o para o lado contrário... e desta
vez dando novo cavalo de pau que a jogou na água.
Nesta altura dos
acontecimentos, em todas as dragas em volta, havia uma plateia atenta e
eufórica com o inesperado espectáculo, que só terminou quando dois outros peões
corajosos e habilidosos, foram com uma outra voadeira resgatar a que estava
desgovernada.
O
BAMBURRO (1)
Dois dos garimpeiros mais
bem sucedidos no Rio Madeira, têm uma história singular e interessante. Sou amigo dos dois.
São dois sócios que se
complementam na perfeição e cujo trabalho conjunto tem resultados muito bons.
Um, o Silvino, nissei baixo e forte, com uma boa formação técnica e
uma inteligência perspicaz, que o leva a investir sempre em equipamentos de
última geração. O outro, o Rogério, português, o “português dos Periquitos”
como passou a ser conhecido, vindo de pobre família de pescadores, franzino mas
rijo, longas barbas, fez um curso de mergulho e escafandro em Portugal, com o
objectivo de emigrar para a Venezuela e trabalhar nas plataformas dos poços de
petróleo. De passagem para a Venezuela, em Manaus ouviu falar dos garimpos de
mergulho no Rio Madeira... voltou para trás e aqui ficou. Dele se diz que tem
faro para o ouro!
O destino levou-os a
encontrarem-se no Rio Madeira, nos Periquitos, no tempo em que ainda não havia
dragas, e começaram os dois como mergulhadores, em parceria, quando um
mergulha, o outro fica atento ao compressor de ar.
Assim nasceu entre eles uma
sólida amizade e um interesse em comum, que os levou a serem sócios na compra
de uma balsa. Fizeram ouro, juntaram, e quando apareceram as primeiras dragas,
as chamadas “queixo duro”, em que a lança era movimentada manualmente com uma
catraca, compraram uma.
E foi a queda, a derrocada,
a draga não fazia ouro de início e as economias do tempo da balsa, fortemente
diminuídas pela compra da draga, em pouco tempo se desgastaram por completo.
Num dia vinte e quatro de
Dezembro, completamente blefados e no auge do desânimo, resolveram vender a draga.
O Silvino e os peões foram
para Porto Velho e o Rogério, que não tinha família com quem passar a noite de
Natal, ficou sozinho na draga, guardando o equipamento.
Na noite de vinte e quatro
para vinte e cinco, triste e encostado no barranco, constatando que ainda tinha
um resto de óleo diesel no tanque, mas sem dinheiro nem gasolina na voadeira
para levar a draga para o meio do rio e poitar, optou por gastar aquele óleo
diesel ali mesmo. Colocou o motor para funcionar e mandou brasa !
O combustível era pouco e
deu para poucas horas de trabalho, ao fim das quais, apurado o dragado, deu
mais de meio quilo de ouro.
O Rogério mandou um peão
conhecido a Porto Velho, avisar o Silvino para não vender a draga e começou aí
o bamburro deles.
Nesse barranco, trabalhando
os dois sozinhos e por turnos, fizeram vários quilos de ouro, e o Rogério
tornou-se conhecido como o português dos Periquitos.
Nunca mais voltaram a passar
por uma situação difícil. Daí em diante, sempre actualizando equipamentos, são
seguramente os garimpeiros que mais ouro produzem no Rio Madeira.


Comentários
Enviar um comentário