Livro: Memórias e Aventuras de um Cabinda em Terras Brasiliensis



A VERDADE É SEMPRE ESTRANHA 
                               ( Byron )



NA VIDA O IMPORTANTE É ESCAPAR
( Provérbio de diversos grupos étnicos Bantu em Angola)




TÚBILA YAKO:
UBIKA LINGANA
Trad. - Fala o que é teu:
            Deixa o alheio
( Provérbio Cabinda que equivale ao “meter o nariz onde não é chamado”)







INTRODUÇÃO


Acontece, não é freqüente, não é comum nem corriqueiro, mas sorte também não é para quem precisa ou merece, é para quem tem, e também não é inédito, aconteceu com Giovanni Papinni, quando recebeu das mãos do insano Gog os manuscritos que mais tarde publicaria com o nome do autor, aconteceu com Márcio de Souza, encontrando como que por acaso, numa livraria do bairro boêmio parisiense, os manuscritos das memórias de Luiz Galvez, que com um exército de tropa mambembe e bêbada tomou da Bolívia o território do Acre, e mais tarde se auto coroou Imperador do Acre, onde legislou, distribuiu armas e guerreou, aconteceu com maços de cartas de amor sigilosas, contendo segredos de alcova, de perfídia e adultério, segredos de envergonhar gerações de descendentes diretos e indiretos, que caíram em mãos não tão confiáveis nem discretas. Aconteceu com Fernando Pessoa, o grande poeta da língua portuguesa quando, numa clínica psiquiátrica de Cascais, recebeu de Antônio Mora os originais de “O Regresso dos Deuses”, a obra prima do neo paganismo português.

Aconteceu comigo também, numa tarde cinzenta de meio de semana, iniciada em franca e ordeira placidez, seguida de susto e contrariedade.

Andava eu pela Rua da Carioca no centro do Rio de Janeiro, tentando dar um sentido à vida e encontrar um lugar para me proteger da chuva torrencial que as nuvens pesadas de chumbo ameaçavam desabar a qualquer instante, depois de uma rápida e interrompida visita à jovem e pudica esposa de um importador de queijos e vinhos, ranzinza e carrancudo. Tão ciosa era da sua ilibada reputação, que só na sacrossanta alcova matrimonial cedia, a fortes insistências e bem colocados argumentos, vislumbres da pele morena, tonificada pelo sol do Pará, mas que, vencidas as barreiras do pudor, se entregava com um resfolegar crescente que simulava no contralto, uma locomotiva a vapor.

Terá sido o acaso, o determinismo da vida, ou o som de válvula de caldeira soltando vapor comprimido, chegando aos ouvidos do marido, no térreo do sobrado, no armazém de secos e molhados?

Não sei nem quero saber, que não sou filósofo nem fatalista, apenas escutei o barulho metálico da antiga fechadura de ferro fundido, com um passo estava no avarandado do sobrado e, com um pulo não muito elegante nem garboso, caí torcendo um tornozelo, entre um apontador de jogo de bicho, magro, taciturno e compenetrado, e duas mulatas em roupas colantes que se dirigiam para a cinelândia.

A ninguém impressionou ou causou curiosidade o meu vôo e pouso desgovernado, nem tão pouco os gritos da adúltera, perdidos no fuzuê de barulhos àquela hora do dia, a quem o marido mal humorado, ministrava com afã apenas similar ao usado no fecho das contas do “deve e haver”, uma cessão de lapadas caprichadas....um despropósito, em pele tão macia e complacente, tão sensível ao toque sutil.

E fui mancando, Rua da Carioca acima, até que os primeiros e grossos pingos de chuva me empurraram para uma livraria de livros usados, onde a atendente, uma loira de sotaque paulistano, chamada Andréa, de sorriso aberto e cativante, e curiosa leitora de culturas exóticas, me mostrou o setor de livros sobre África em geral, e Angola em particular.

Lá, embrulhado em amarelecido papel quebradiço pelo tempo, e atado a antiga fita de cor indefinida e indecifrável, encontrei as memórias de D. Francisco Franque, um nobre negro de Cabinda, culto e viajado, mercador de escravos e aventureiro.

Comprei a preciosidade por preço barganhado e quase irrisório, e fui fechar-me em casa, para ler o que o destino – merceeiro? -  me havia colocado em mãos.

O que li foram histórias mirabolantes, tão inverossímeis quanto reais, como depois constatei, pesquisando a existência e vida de semelhante personagem. Posso assim atestar que D.Francisco Franque existiu, sua história e a da família Franque, nos anais da história de Angola e de Cabinda.

O texto, de escrita antiga e terminologia misturada entre os termos africanos, nem sempre muito claros de entendimento, me levaram a fazer mais uma espécie de tradução do que alterações.....nada foi mudado, apenas alguns termos de expressão gentílica ou meramente localizada, foram modernizados para melhor e mais rápido entendimento dos milhares de leitores que pretendo venham a comprar este livro.

Na verdade, um trabalho tão facilitado, que fosse eu um bom caráter, procuraria os descendentes diretos do meu personagem, para com eles dividir os grossos proventos que me hão de advir da comercialização da história de Chico Franque (estamos íntimos já, depois de lhe conhecer a história e as atribuladas andanças pelo mundo).

Em alguns pontos que me pareceram um tanto quanto exagerados, me dei o direito de comentar em particular com os meus leitores, mostrando o meu ponto de vista, limando arestas de brilhantismo despropositado, afinal, alguma coisa devo fazer pela parte que me toca como autor..

De resto, mantive o tom de folhetim narrado na primeira pessoa, que achei encaixar tão bem nas aventuras a seguir contadas.

A jovem e linda morena esposa do importador?

Para minha contrariedade não voltei a ver, a prudência me aconselhou manter distância das vizinhanças dos atacadistas e varejistas de queijos, vinhos e similares, situação já de si dolorosa, mas agravada por um reflexo condicionado pavloviano, que me deixava em situações embaraçosas cada vez que sentia o cheiro de derivados de leite, ou o acre aroma de vinhos.

Quando achei seguro sondar as redondezas, soube por alcoviteiros de plantão que tinham viajado em segunda Lua de Mel para o norte, onde a devota esposa iria rever parentes próximos, participar do Círio de Nazaré, matar saudades das mangas de Belém e do cheiro do Mercado de Ver o Peso, comprar infusões de pica de boto em cachaça e catuaba, adjutório muito mais eficiente que os modernos estimulantes sexuais masculinos, verdadeiros reparadores das disfunções eréteis, todo o mundo sabe por lá.


CD



                                          -“-


Comecei a freqüentar as vespertinas das filhas de Maria; capelas e igrejas sempre tiveram para mim o efeito bizarro de me convencer de que nelas, as pessoas declinavam pecados que não passavam de mero aperitivo ao mundo de iguarias que a vida podia oferecer, ficávamos nos bancos do fundo, a minha mão subia pelas pernas, por dentro da saia, até encontrar o tecido grosso  da calçola de algodão, e então, pela lateral, num ágil movimento de dedos, afastava o tecido encontrava a mata de cabelos encrespados, o rio de umidade morna, por onde meu dedo ia passando e  arrancava gemidos  e contorções involuntárias que me guiavam na tarefa, e ora cutucando uma ervilhinha lisa e sensível, ora insinuando a falange pela entrada estreita e invicta, ouvido atento às nuances do gemido, que me orientavam sobre o ritmo a imprimir, e eu orientava também, pedia com um sussurro que afastasse mais as pernas, o aperto das coxas me era prazeroso, mas inibia movimentos, impedia o livre e espontâneo acesso a pregas mais recolhidas, de toque menos facilitado, e que evitasse os movimentos bruscos nos quadris, que chamavam a atenção sem necessidade, tinha que ser uma dança sutil, reservada, levada com empenho e cuidado por nós dois, aconselhava se concentrar na tarefa, e vamos que vamos que o tempo urge, minuto perdido pode nunca mais ser recuperado num assunto destes, e não arfa que se escuta na igreja toda, e que não prestasse atenção na oratória, que para isso eu ali estava, olhar sereno e casto fixado no padre, eu prosseguia determinado até ao gemido gutural do final, e o bambear das pernas, após o que, com todo o cuidado e desvelo, mantinha a mão longe de qualquer contato outro, que pudesse adulterar aromas com que me deleitava na minha cama.

Era mais velha que eu e estava noiva de um negociante de diamantes que andava pelas minas gerais. Depois que o Governo da Metrópole garantiu aos descobridores a posse das minas, em 1694, aumentaram significativamente as áreas de mineração. Bandeirantes paulistas descobriram minas de ouro, prata, pedras preciosas  e diamantes em Minas Gerais, Mato Grosso e Goiás, povoações se formavam nessas regiões, organizados em torno da extração e comércio dos diversos minerais extraídos; predominava o extrativismo de baixo investimento, as faisqueiras, os depósitos aluvionares dos leitos dos rios, com mão de obra escrava, havia poucas lavras de empresas explorando veios mais profundos. A atividade mineira estava no auge.

A moça era virgem e tinha que manter essa condição até ao casamento, recusava-se obstinadamente a marcar encontro a sós.

                                            -“-


Gostava que eu lhe falasse de Angola, da minha terra, gostava de escutar as histórias que eu tinha para contar. Dormíamos misturados, não encostados, juntos, mas um no outro, perna sobre a minha, cabelos pubianos entrelaçados nos da minha perna, encostados e misturados os humores do amor também, num abraço de sobressalto à simples insinuação de afastamento de um dos dois.

O Rio de Janeiro era um esgoto a céu aberto, canais fétidos sulcavam os caminhos e ruas estreitas, onde uma incompetente delegação sanitária mandava esporadicamente  despejar cal viva e queimar alcatrão e pez para camuflar o cheiro teimoso que evolava de ruas e casas, de todos os lugares.

Minha fase de educação secundária estava para terminar. Segundo a esposa de alto representante da coroa, que gostava de ser tratada como alimária, e que eu montava de quatro, que me chamava de negro sujo quando me mandava meter até ao fundo, que me esperava nua, sentada na cama do quarto escurecido de fuligem das lamparinas, enquanto eu me esgueirava pela janela que dava para a rua e o marido roncava pacificado pelo vinho do jantar no quarto ao lado, me tornara um competente fornicador,  com verdadeiro gosto de investigação científica  pelos itinerários da fodelança.

Me flagrara certa vez olhando-lhe os tornozelos bem torneados, quando saía da carruagem. Fixou-me o olhar com tanta intensidade que senti as faces arderem de  vergonha, mas compareci ao recado para a encontrar na porta de casa, depois que me desse um sinal com a lamparina de óleo.

                                                                         - “ –

A quase constante presença das meninas do bordel da madame Filó, uma maranhense autoritária e com grande poder de liderança no geniceu, que exigia de suas protegidas um comportamento exemplar na rua, inclusive na indumentária sempre impecável e da última moda  vinda para da  Corte, davam o ar festivo às rodas de luta, nos seus vestidos de decotes cavados, espartilhos ajustados, saias de babados e fru frus, anáguas aparecendo para tirar a concentração aos jogadores, tornozelos entrevistos para ensandecer os homens, numa propaganda que antecipava os prazeres da noite na casa de rameiras, gritinhos delirantes a cada rabo de arraia executado, a cada baçula bem aplicada, a cada golpe esquivado.

Os jogadores se esmeravam perante a torcida, queriam o aplauso das quenguinhas, a admiração das meninas.

Algumas inovações de minha lavra, como o do uso da madeira biriba  para a confecção das vergas do berimbau, foram aumentando o meu conceito de indivíduo inteligente e criativo, conceito que se solidificou, quando criei o golpe “boca de calça”, em que o capoeirista, aproveitando um momento de descuido do adversário, ou lhe desviando a atenção simulando um vulgar “rabo de arraia” ou uma simples “rasteira”,  lhe segura a bainha da calça ou o tornozelo, puxando-o com violência e num rompante, o que causa o desequilíbrio e conseqüente queda. No chão......aí meu camarada, a luta estava ganha! Era só complementar com o famoso grampo à Fernando Osório, outro mestre da arte que também fez escola com golpes de sua invenção, o melhor deles o “grampo asfixiante”, golpe de domínio no chão, tanto pela apnéia como pela sovaqueira!

Passei a ser respeitado, usava boas roupas que me eram doadas pelos alunos da boa sociedade, da nobreza florescente, era cumprimentado e tinha lugar cativo nos bordéis, era reconhecido nas ruas, rejeitava alunos por falta de tempo nos meus horários elásticos.

Algumas raparigas tinham verdadeiro orgulho em compartilhar comigo além dos lençóis, os proventos da atividade laboral a que se dedicavam com empenho; em troca eu afastava decadentes enrabichados, poetas falidos, maus pagadores das roças e canaviais, mãos fechadas do comércio e do funcionalismo, marinheiros embriagados e briguentos, cujos vapores etílicos se dissipavam após duas ou três baçulas  bem aplicadas, em seqüência rápida para não deixar entender direito o que estava acontecendo.

 Livres dos vapores do álcool que lhes toldava as idéias, eram educadamente convidados a esvaziar bolsos e bolsas, cujo conteúdo, depois de ressarcida a rapariga ultrajada, revertia como doação à Escola de Capoeira Angola da Lapa.




- Memórias e Aventuras de um Cabinda em Terras Brasiliensis

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