Conflitos culturais
Para
o etnógrafo, o Continente Africano é o verdadeiro paraíso de pesquisa e estudo; lá se
encontram todos os estágios da civilização humana, desde o Período Paleolítico
até ao Contemporâneo.
Não
é possível formar uma ideia político-social e econômica de um povo, sem que
desse povo se tenha uma ideia global acerca da sua personalidade
“comportamento coletivo, consuetudinário”.
Para dar essa ideia global acerca da “personalidade” dos povos de Angola,
torna-se necessário que primeiro se faça uma breve nota explicativa do
aparecimento, formação e subdivisão desses povos.
Rejeito
veementemente os conceitos arbitrários de progresso, bem como teorias
evolucionistas segundo as quais a cultura ocidental é invariavelmente colocada
no topo da escala de civilização.
As
culturas devem ser estudadas pelo seu valor inerente, e só parecem exóticas a
quem não procura entender o sentido e a coerência das suas normas e costumes.
As
linhas etno linguísticas em Angola têm três origens distintas:
Em
primeiro lugar vamos considerar os KoiSan - Bosquímanos ou Mukuankalas –
Hotentotes, que dominaram a metade Sul da África até cerca de cinco mil anos
atrás.
Supõem
alguns Antropólogos que estes indivíduos de características completamente
distintas de todos os outros seres humanos, descendem de remota família caucasiana.
Há
cerca de cinco mil anos atrás, dá-se a invasão dos Bantus – plural de N’tu, que
quer dizer “Ser Humano” – povos vindos das margens do Mar Vermelho em busca de
melhores terras e pastagens – com os movimentos glaciares entre o III e o VIII
milênios começa o processo de desertificação do Norte de África – e que, em
maior número e com armamento mais sofisticado, foram chacinando e escorraçando
o restante da etnia anteriormente dominante, para as regiões Desérticas do Sul do Continente.
A
terceira Etnia, que não vamos considerar, são os brancos, descendentes dos
Europeus que colonizaram o País e que desembarcaram pela primeira vez na foz do
Rio Zaire, no século XV.
A
primeira etnia considerada, a dos KoiSan/Bosquímanos – termo que deriva de Bush
Man – limitou-se às regiões desérticas,
e mantiveram inalterados os seus costumes, face às dificuldades e da aridez da
região que ocupam.
Limitam-se
à “caça e colheita”, isto é, caçam e colhem frutos, verduras, raízes e
tubérculos de crescimento espontâneo para alimentação; nada cultivam e mantêm
hábitos nômades.
A
segunda linha étnica, os Bantus, novos senhores das planícies e florestas,
sub-dividiram-se e ocuparam regiões de características diferentes, de caça, de
pastagens, de agricultura, de pesca, mais ou menos ricas, o que determinou,
além da inclinação econômica para a existência, tornarem-se mais ou menos
combativos. Com o passar dos séculos adquiriram novos costumes de acordo com as
regiões ocupadas; a própria língua mãe sofreu alterações de região para região,
o que dá origem a novos povos, novos grupos etno linguísticos, com novos
costumes e características de vida próprias, embora Bantus por raiz.
Acho
importante esclarecer que falo de costumes puros, tão isentos da influência da
cultura ocidental, levada pelos colonizadores, quanto possível, e que ainda
hoje se encontram pelo país.
Costumes
de uma lógica, civismo, humanismo e riqueza cultural que nunca foram plenamente
reconhecidos pelos ocidentais.
A
falta de conhecimento da cultura – costumes, civilização, princípios éticos e
filosóficos – dos povos Africanos, foi a causadora de abismos de incompreensão
entre colonizados e colonizadores.
Na
África colonial, era costume as classes mais privilegiadas – de esmagadora
maioria branca – terem diversos empregados domésticos, por vezes trazidos
diretamente dos kimbos – aldeias nativas – do mato para a cidade, onde, por
força das circunstâncias se viam na necessidade de aprender serviços e a
conviver com realidades que culturalmente nada lhes diziam.
Volta
e meia, um desses serviçais “Had Oc”, encontrando pela casa um objeto não usado
por ninguém, mas do qual ele necessitasse, pegava-o.
A
acusação de roubo, causava a mais autêntica
admiração e negativa:
-
Não roubei não,
peguei porque ninguém estava precisando!
Os
povos africanos têm um desapego material, que muito deveria ensinar às culturas
ocidentais. Poucos são os objetos pessoais – panelas, armas, a roupa - a grande
maioria de objetos, ferramentas etc, são comunitários.
O
filme Dersu Uzala, de Akira Kurosawa, de 1975, mostra conflitos culturais entre
os dois personagens principais. Conta a história de uma expedição científica
pelo Alaska, em 1920, onde o chefe da expedição, pleno de conceitos cívicos
ocidentais, começa a dar-se conta de que, a cultura do guia, um indivíduo não
alfabetizado, é na maioria dos aspectos, muito mais coerente e humana.
Num
ponto da história, vítimas de uma tempestade de neve, abrigam-se numa cabana
até a tempestade passar; quando vão embora, o guia, pega um pouco de sal e de
comida não perecível, da parca reserva que levavam, e deixa na cabana.
O
cientista perplexo, critica-o, nunca mais irão voltar aquele lugar, porque
deixar a comida lá? O guia responde de forma singela que, eles não voltarão,
mas outras pessoas certamente sim, e podem estar necessitados de além de
abrigo, também de alimento.
Esse
conceito de repartir, a hospitalidade inerente e é um dos conceitos que mais
estranheza causavam ao colonizador. O africano quando viaja e chega a um kimbo,
simplesmente se dirige à tchiota, sabendo que ali pode dormir, e que, quando
chegar a panela de comida, também passa por ele, sem que nada tenha que pedir,
sem que nada precise agradecer.
Outro
costume dos povos de cultura pura Africanos, em geral, e ainda hoje muito
encontrado em Angola, independentemente de origem etno linguística , e mesmo
entre camadas com forte influência da cultura ocidental, e que tem sido
constante alvo de críticas e desdém, é a sequência dos elementos de uma família
quando caminhando. O homem vai na
frente, não carregando qualquer tipo de peso; mais atrás uma dezena de metros,
vai a mulher carregando todo o peso – kinda com mantimentos, bicuatas e panos,
filho de colo nas costas, o que for – também mais de uma dezena de metros atrás
da mulher, vai a prole de filhos.
Assim
caminham quer em pequenas ou longas jornadas, e mantendo constante diálogo.
Atitude
inconcebível para a cultura ocidental, impregnada de conceitos cavalheirescos
não adaptados à realidade da vida africana.
Organização
de marcha coerente, se nos lembrarmos que, desde tempos imemoriais, caminhando
por terras que a qualquer momento poderiam reservar como surpresa o
aparecimento de um predador, o homem, chefe e defensor do clã familiar, preparado
desde a “mukanda Kandongo” nas artes da caça e da guerra, não podia levar
qualquer peso que por ventura viesse a
estorvar-lhe os movimentos de defesa. A mulher, um pouco mais atrás, tinha
condições de fugir em caso de perigo real; os filhos, bem mais atrás, só por
grande fatalidade não conseguiriam livrar-se do perigo pela fuga.
A
conversa constante, e às vezes incoerente ou despropositada durante a
caminhada? Era, ou melhor, é, o jeito de manter contato sem tirar os olhos do
caminho.
E
barreira cultural, fica bem clara, em episódios que aconteciam antigamente na
Balabaia.
AS LAGOSTAS DA BALABAIA
I
Por razões que talvez só os
biólogos marinhos e os oceanógrafos possam explicar, entre a cidade do Lobito e
Sumbe, no Egito Praia, havia uma quantidade de viveiros de lagosta, que
tornavam a pesca do crustáceo uma atividade enfadonha de tão fácil que
era; na época de maior densidade
populacional de lagostas, no final da estação chuvosa, em pesca de mergulho se
podia escolher as maiores, e em poucas horas se conseguia pegar à mão uma boa
quantidade delas.
Mas
nem havia necessidade, porque, das sanzalas da região, quase sempre havia
pessoas vendendo pencas de lagostas, penduradas em cordas e ainda vivas, na
beira da estrada e por preços irrisórios. Não raro, motivos de cenas
surrealistas e de choque cultural.
Sabe-se
que ao africano com pouca influência da cultura ocidental, faltam algumas
noções tão fundamentais nos países de cultura europeia; noção de tempo, de distância,
de moeda/ comércio, entre outras.
Acontece
que, os kimbos da região, embora auto suficientes em quase tudo, não eram completamente
alheios a alguns poucos itens do conforto ocidental; catanas, kambrikites
quando chegava o cacimbo e algumas ferramentas agrícolas.
Assim,
quando um habitante de alguma sanzala da
região precisava ou queria comprar algum artigo do comerciante de mato, ia lá à
loja e perguntava o preço, como mera referência. Na cabeça dele, o artigo em
questão já tinha um preço estipulado e estabelecido, que era o produto do
trabalho de um determinado numero de horas, meio dia, um dia, dois dias,
dependendo do grau de necessidade e utilidade do bem em questão.
E
então ia mergulhar durante esse tanto de tempo e pegar as lagostas que conseguisse,
que depois pendurava no cipó ainda vivas,
que ia para a beira da estrada vender pelo dinheiro pesquisado junto ao
comerciante para o artigo; na realidade não era uma venda e sim uma troca com
intermediário....trocava as lagostas pelo kambrikite ou catana!
Onde
o surrealismo ou choque cultural?
Bem
é que na época, não havia ainda os freezers caseiros, e era frequente um
viajante parar interessado em comprar, mas não a penca toda; onde guardar em
condições de não deterioração vinte lagostas grandes? Ou por que amigos
distribuir tantos crustáceos? Dava sim o preço pedido, mas por apenas três ou
quatro das lagostas.
A
negativa por parte do vendedor era imediata, de modo algum, o dinheiro pedido
era para a totalidade dos bichinhos, ou tudo ou nada.
Não
adiantavam os argumentos tentando explicar que não se tratava de logro, não era
intenção enganá-lo, ele que entendesse que se estava disposto a pagar o preço
pedido, mas só levar uma parte.....
Era
tudo ou nada, e se o viajante se negasse a levar tudo, então o vendedor
preferia continuar ali na beira da estrada aguardando outro interessado; tempo
não era questão relevante nem muito bem entendida.
E
a recusa não era porque se sentisse logrado pela proposta, mas sim ofendido.
Representava um descaso, uma desvalorização do trabalho empreendido, como
trabalhara aquele tanto de tempo e agora lhe ofereciam o dinheiro pretendido
para troca por apenas uma parte do produto conseguido? E o que fazer, com o
resto do produto, destinado apenas a esse fim?
Outra
circunstância surrealista, acontecia quando dois elementos precisavam de
comprar o mesmo artigo, e ambos iam mergulhar para pegar lagostas no mesmo
período de tempo, e um deles, porque mais sortudo ou hábil, pegava uma
quantidade nitidamente maior.
Os
dois iam para a beira da estrada, lado a lado, vender pelo mesmo preço as
quantidades diferentes. O que tinha pego
menor quantidade de pescado, não se constrangia minimamente de pedir por meia
dúzia de lagostas o mesmo dinheiro que o companheiro pedia por uma dúzia...tinha
trabalhado o tempo justo e com afinco, se pegou menos, bem isso são coisas da
vida.
A
tentativa de barganha comparando preço e quantidade causava a maior estranheza,
pedia o mesmo dinheiro porque trabalhara o mesmo tempo que o companheiro!!!!!
Um
outro caso, não de conflito cultural, ilustra bastante bem a prodigalidade do
mar do Egito Praia.
AS
LAGOSTAS DA BALABAIA II
Na
Canjala, entre o Lobito e o Sumbe, havia uma pousada que servia de escala para
o início e o fim das caçadas na Anhara do Hanha.
Pertinho
ficava o Egito Praia, com a sua praia imensa e de mar tão rico em peixe e
frutos do mar, com águas limpas que deixavam ver a grande distância, um dos
paraísos para a caça submarina. De lagostas de todos os tamanhos a meros e
garoupas, barracudas, peixes prata, de tudo havia naquelas águas em grande
fartura.
Na
ida para a caçada, na parada na pousada da Canjala se preparavam as armas, se
escolhia a munição, enchiam-se as garrafas de café, testavam-se os farolins se
fosse à noite, enfim, os preparos gerais para que não houvesse necessidade de
se interromper a caçada por nenhum motivo fútil, ou pior, que se perdesse um
bom espécime por mera negligência.
Na
volta, se guardava todo o equipamento de caça, e se tiravam as partes de carne
que se ia levar, deixando o resto – sempre muita carne; de uma pacaça se tirava os filés de um ungiri os filés e um
quarto trazeiro, dos golungos idem – com o dono da pousada.
Outras
peças, ficavam inteiras nas sanzalas, para serem secas e alimentar a população.
Enquanto
os empregados da pousada desmanchavam e cortavam a caça, sentavam-se os
caçadores no restaurante da pousada, bebendo uma Cuca nem sempre muito gelada,
e comendo um mata bicho de bifes de caça bem ajindungados.
Pagavam-se
as cervejas, os bifes eram de graça para caçadores conhecidos.
Certo
dia, um grupo de caçadores voltou da caçada sem nada, de mãos a abanar, mas
como de hábito, parou na pousada da Canjala para o mata bicho.
Pedidas
as Cucas e os bifes, o empregado de mesa apenas disse que não tinham carne.
Então
o que havia para se comer?
O
estalajadeiro, do lado de dentro do balcão, mais do que depressa, para que os
caçadores sequer pensassem que se tratava de represália por não terem levado
carne nesse dia, deu a volta e veio à mesa, constrangido, pedir desculpa por
não ter carne a oferecer, a época não estava sendo de caça, fazia dias que
nenhum caçador deixava lá uma peça que fosse.
E
humilde, muito humilde e envergonhado, disse só ter para nos servir junto com
as cervejas, lagosta cozida ou grelhada.

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